Papeles Sueltos

CAROLA SAAVEDRA | PAISAGEM COM DROMEDÁRIO

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PORTUGUÉS | ESPAÑOL

Gravação 1

Barulho de vento e de ondas batendo num rochedo. Pequenas pedras caindo na água. Passos. Interrupção. Voz.

Estou no extremo sul da ilha. Se eu nadasse numa linha reta, imagino que em algum momento chegaria ao Antártico. Terras austrais. […] O mar aqui é um mar que ainda não foi domesticado. Nunca lhe foi imposto limite algum. Até mesmo as cores, o cheiro, as algas, tudo nele parece que acaba de surgir.

Faz uma ou duas semanas que estou aqui. Talvez sejam apenas alguns dias, não sei. Alex, os dias passam de modo incomum neste lugar.

Queria começar falando de uma imagem. Não sei se era uma fotografia ou se fui eu que guardei aquele momento como algo estático na memória. Antes que as coisas com Karen tomassem o rumo que tomaram.

 

Gravação 4

[…]

Quando eu saí da tua casa aquela tarde, o sol estava se pondo e o céu adquirira uma tonalidade avermelhada. Soprava uma brisa fresca de primavera. E eu me sentia bem, leve. Tudo parecia perfeito. Agora, penso, já percebeu que são justamente esses momentos, quando tudo parece perfeito, que antecedem os acontecimentos mais assustadores, as piores tragédias? Talvez toda felicidade tenha um fundo falso, uma tonalidade artificial, e esteja ali apenas para contrastar com o que está por vir.


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