Papeles Sueltos

ANA PAULA M A I A

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ESPAÑOL |  PORTUGUÉS

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O fogo se multiplica sempre em fogo, e o que o mantém vivo é o oxigênio, a mesma coisa que mantém o homem vivo. Sem oxigênio o fogo se extingue, e o homemtambém. Assim como o homem, o fogo também precisa se alimentar para permanecer ardendo. Vorazmente devora tudo ao redor. Se o homem for sufocado, morre por não poder respirar. Se abafar a chama, ela também morre.

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As chamas se mantêm acesas enquanto queima um pedaço de madeira, um colchão, cortinas, entre outros produtos inflamáveis. Inclusive, os seres humanos são um produto inflamável que mantém o fogo crepitando por muito tempo. Ambos sobrevivem da mesma coisa, e, quando deparados, querem destruir um ao outro; consumir um ao outro. O homem descobriu o fogo e desde então passou a dominá-lo. Mas o fogo nunca se deixou dominar.

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O planeta é mensurável e transitório. Assim como o espaço para armazenar lixo está se findando, para inumar os cadáveres também. Daqui a algumas décadas ou uma centena de anos haverá mais corpos embaixo da terra do que sobre ela. Estaremos pisando em antepassados, vizinhos, parentes e inimigos, como pisamos em grama seca; sem nos importarmos. O solo e a água estarão contaminados por necrochorume, um líquido que sai dos corpos em decomposição e possui substâncias tóxicas. A morte ainda pode gerar morte. Ela se espalha até quando não é percebida.

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Abalurdes é uma cidade encravada na face alcantilada de um penhasco. O rio é morto e espelha a cor do sol. Não há peixes e as águas estão contaminadas. O céu, mesmo quando azul, torna-se carvoento nos fins de tarde. Uma região lamacenta e gelada nos dias de inverno. Nas áreas mais afastadas, ainda existem casas de alvenaria que são simples e desbotadas. A pavimentação é precária em algumas partes isoladas da cidade, com resquícios de um antigo asfalto. A estrada principal é mal iluminada, sem sinalização e com curvas acentuadas que margeiam longos despenhadeiros.

Abalurdes é uma região carbonífera. Funciona uma estrada de ferro que transporta o carvão mineral explorado no território. O tempo de exploração já dura cinquenta anos; o tempo em que os milhares de toneladas de carvão mineral continuam a ser extraídos.

Os homens que moram na região voltam das minas irreconhecíveis, revestidos de fuligem densa. Por todo o local a fina camada de cinzas cobre as superfícies. A outra parte dos trabalhadores mora em alojamentos próximos à mina.

A escuridão de uma mina é úmida, com constantes barulhos de gotejamento, iminência de desabamentos e um ar muito pesado. É uma escuridão que comprime os sentidos. Que dificulta a respiração. Aos poucos, esses homens tornam-se parte dela; acobertados pelas trevas tóxicas do ar poluído. Quando está fora da mina, Edgar Wilson gosta de acender um cigarro. Acostumou-se ao gosto de fuligem, ao queimado, ao fogo. Foi com os homens do alojamento que aprendeu a fumar. Porém, alguns homens fumam dentro da mina. É impossível controlar a todos. É difícil tratar com peões. São homens brutos, de índole primária e arredios à obediência. Lidar com peões é como apascentar jumentos no deserto. O local de uma mina de carvão é uma espécie de deserto. Isolado, abafado, muita poeira, e, mesmo com tantos trabalhadores, existe solidão. A imensidão das extensas proporções de terras ao redor pode esmagar a condição humana que existe até no mais bruto dos homens. Os jumentos são animais difíceis de dominar. Arredios, tentam derrubar quem neles monta; e, quando derrubam, eles pisam em cima e ainda tentam morder. São bestiais em muitos sentidos, esses homens e os jumentos.

Há três horas escavando uma parede de carvão incessantemente, Edgar Wilson para por pouco tempo para beber água. O trabalho dos homens daquela galeria já rendeu dois vagonetes de carvão que são empurrados sobre trilhos por dois homens responsáveis por essa tarefa. O som das marretadas perfurando o carvão é interminável. Todas as noites, quando tudo ao seu redor se faz silêncio, ele continua a ouvi-las. Edgar Wilson tem uma sensação eternizada por alguns ralos segundos. É um estranho pressentimento que o faz olhar para trás, por cima do ombro. Uma suave corrente de ar passa por suas costas, muito suave, mas perceptível aos seus sentidos aguçados. As trevas se fazem ainda mais densas. Quando se escava o carvão mineral, pode ocorrer a liberação de gás grisu, que é inodoro e formado por gás metano. Ao ser inalado não causa tontura nem outro sintoma, mas é de fácil combustão quando acumulado em grande quantidade. Uma simples fagulha de uma lâmpada serve de ignição para a explosão. Os exaustores de dentro da mina estavam desligados por dois dias devido à escassez de energia elétrica e voltariam a funcionar no fim da tarde. Foi uma rajada de vento que arremessou os homens a distâncias de dez ou doze metros e os escoramentos começaram a desabar. O gás em combustão queima e provoca morte por sufocamento, além de ser venenoso. Edgar Wilson abre os olhos, mas está cego devido à extrema escuridão. Sua lanterna desapareceu quando foi arremessado para as profundezas da Terra como um habitante das falhas subterrâneas. Sem nenhum vestígio mínimo de luz, levanta-se da grande poça de água e lama para a qual foi lançado. Cair dentro de uma poça daquelas evitou que se queimasse. Apalpa dolorosamente as paredes. Está um pouco machucado e parece que foi só. Ele ouve gritos de socorro, gemidos abafados e apavora-se pela primeira vez em toda a sua vida. Tenta se guiar pelo som dos gotejamentos. A fumaça é tão pesada e sólida quanto um muro de concreto. Ele tira a camisa, molha-a na poça e coloca contra o rosto numa espécie de filtro para conseguir respirar.

É impossível pensar em procurar alguém naquelas circunstâncias, ele precisa sair para voltar e buscar os outros. Pensa em todos os homens que estão ali embaixo, que trabalhavam como ele. Balbucia uma prece agarrado a uma medalha no pescoço. Ele rompe a nuvem de fumaça conforme avança contra ela e seu esforço o faz atravessá-la impetuoso. A respiração parece extinguir-se e a cabeça lateja. Edgar avança sentindo o peito dolorido, pesado, as pernas atrapalhadas. Segue orando pelo caminho tenebroso e apalpando os escoramentos destruídos. Caminha cego sem saber onde fica a entrada do túnel principal. Na entrada principal, à espera de socorro, estão outros homens. Eles se recolhem no chão apavorados e somente aguardam. Edgar Wilson fecha os olhos e pensa no céu azul. Se morresse, morreria com esta recordação. Se saísse dali, nunca mais invadiria as entranhas da Terra e trabalharia debaixo do sol todos os dias. Nunca mais se ausentaria dele.

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