Papeles Sueltos

PORTUGUÊS | ESPAÑOL

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LUISA GEISLER | CASACO DE LÃ, RAIO DE SOL, CHEIRO A JASMIM E PORRE DE VODCA

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Confiro se ainda tô com todas as minhas peças de roupa. Saia, blusa, casaco de lã, garrafa de Stolichnaya. Pés descalços na grama fria e molhada.

Uma noite com um leve cheiro a jasmim no ar, a lua cheia ilumina o lugar, constato que, quando você vomita, não é só vômito que você põe pra fora. A queimação vem

depois.

Não é só aquela pasta grudenta que faz a garganta arder. Não. Tem algo além da sensação do seu estômago recusar tudo que já tinha nele. Algo além desse semissólido que passa pela garganta tão rápido que não se sente queimar.

Às vezes tem que forçar o vômito pra fora. Vomitar as entranhas.

Mas você fica com aquele gostinho amarelo na boca.

A garganta doendo. Tem alguma coisa em ver tudo aquilo jogado na grama úmida. Curiosidade e orgulho em olhar pro que saiu de você.

“Eu que fiz, aham”, e confere se o que você vomitou é natural, amarelado. Confere se tem o cheiro que os outros vômitos têm. Que nem quando você tira uma casquinha

da pele. Ah, você precisa conferir.

Mas não é isso que você põe pra fora. O alívio.

As bulímicas não vomitam porque emagrece. Vomitam porque tira a culpa de comer.

Aquela punição que no fundo você quer porque sabe que passou dos limites. É essa culpa que você põe pra for a com a comida mal digerida, com a bile e, no meu caso,

sangue. A bebida entra, a verdade sai, não é assim que falam? A verdade sai em forma física.

Um tempo antes, no bar, o cheiro de cigarro, suor, desodorante e perfume. As garrafas, as luzes avermelhadas, os quadros baratos, o balcão.

Imagine um barman de vinte anos.

Esse é o Danny, com dois “n” e “y”. Já dormiu com mais de sessenta mulheres, viajou para todos os continentes menos a África e cursa Direito e Gastronomia ao mesmo tempo. Isso é o que ele diz, ok.

Eu tô pouco me fodendo pro que ele diz, desde que ele me empreste a garrafa de Jack Daniel’s e esqueça de pedir de volta.

Ele geralmente esquece.

Entre um gole e outro, eu subo no balcão, grito, partes da minha roupa somem.

Na nudez, as pessoas esquecem. Esquecem que eu era uma puta residente de cirurgia no Hospital de Clínicas da USP, esquecem que eu não gostava de nada daquilo, desisti, que eu simplesmente parei de frequentar as aulas, que eu tentei me matar.

Um dia, experimente a nudez.

Quando olham pros teus peitos, as pessoas ignoram as cicatrizes.

Não pense que eu quero me defender, ou me vitimar.

Eu só quero a vida que todo mundo tem. Sempre quis.

Todo mundo quer a vida que todo mundo tem, por mais idiota que isso soe. Olhando de perto, todo mundo se sente deslocado em relação aos outros. Mas dá pra ver

que todo mundo é igual aos outros nos outros. Todo mundo se sente muito outsider, muito diferente, único, criativo e especial.

Adivinha só, raio de sol, você não é.

Sabe aquele momento em que você sente que tudo que você faz é inútil e pouco criativo, imprestável mesmo? Se chama bom-senso. Ou a voz de Deus.

Pra muitos, pode ser só a mãe.

E quando eu tiro a blusa, as pessoas olham pra mim.

Por um milésimo de segundo, eu significo algo pra um cara, numa festa, em algum lugar. Sou indiferente a ele se lembrar de mim, a ele falar comigo. Irrelevante. Quando eu tiro a saia, muitos me dão dinheiro, muitos oferecem pra passar a noite comigo, muitos querem me conhecer. Um cara falou que me amava uma vez. Gritou que a gente ia ser muito feliz junto. Não sei se é algo sincero, mas eu não sou uma prostituta. Não quero ser a namorada de ninguém, que nem num seriado

americano.

Uma carreira, uma vida sua, uma garrafa de tequila, nada disso vai te acordar um dia de manhã e dizer “não te amo mais, tchau”. “Não tá dando certo”.

Eu me quero. Só.

Se queira.

Às vezes eu minto que vou chupar um cara se ele me comprar uma garrafa de Absolut Vodka. Uma vez, me compraram. Foi a melhor vodca da minha vida.

Minta uma vez, prometa algo que você sabe que não vai cumprir. Se divirta com as expectativas alheias mudando.

Eu só quero dançar e beber.

Just dance, gonna be ok. Lady Gaga invadindo meus ouvidos.

Dance.

Daí o Danny me alcança a garrafa de Stolichnaya. Em geral, já tem algumas meninas dançando comigo junto.

Eu não ligo. Às vezes, os caras falam pra gente se beijar, se agarrar, pegar os peitos, a bunda, fazer beijo triplo, quádruplo.

Se eu tô afim, eu faço.

Uma das gurias é a Manu. A Manu foi intercambista, morou na Irlanda por oito meses, não conseguiu aguentar o ano inteiro. Telefonava pra casa o tempo inteiro,

chorando, passava o tempo todo na internet, trocando fotos e mensagens, se enchendo de Guiness em Dublin.

Voltou apaixonada pela cerveja. Não aprendeu nada de inglês, mas pegou bem a cultura local. A gente aprende o que precisa.

Eu gosto das gurias que dançam comigo, consigo compreender elas.

A gente só gosta daquilo que a gente compreende. Passa a maior parte da vida tentando compreender as coisas, se não, tudo perde o significado. E sem significado, só resta a morte.

Todo mundo teme a morte.

Eu tenho medo de viver uma vida sem significado.

Ninguém precisa viver pra sempre, viver uma vez só é suficiente se você viveu direito. É por isso que é fácil gostar de livros, filmes, relacionamentos, o significado já vem vomitado na sua cara. O que gostar, como gostar, o que fazer, o que acontece no final, como chupar o cara com Halls preto.

Achar o significado das coisas, esse é o desafio.

Veja bem. Achar o significado, não dar. Tanta gente fala que a merda do ingresso de cinema é importante porque foi quando o namorado e mimimi…

Cala essa boca.

As coisas têm um significado mensurável. Dar um significado é atalhar, é chutar, é o valor aproximado. Não se discute o significado. Seu filho não vale mais que o da vizinha só porque ele é seu.

As pessoas tinham que calar a boca mais seguido.

Tem momentos em que eu queria que todo mundo calasse a boca.

Nesses momentos, eu gosto da nudez pública. De dançar, de beber. Aí as pessoas à minha volta param. Os homens falam do meu corpo, elogiam. Ninguém mais

fala da minha mãe, do meu pai, de bebida, de homem, de namoro, de metas, de emprego, de clínicas, de saúde, de psiquiatra. Quietos.

Eu não tenho certeza se realmente fiz um strip-tease pros caras no bar. Eu nunca tenho. Não ligo muito. Nunca soube com certeza se alucinei tudo, se sonhei ou fiz de

fato. Essas alucinações de bêbada. Talvez minha vida toda seja uma alucinação de bêbada. Ninguém se importa, as pessoas parecem esquecer.

Todo mundo esquece.

Esqueça tudo que você sabe até agora.

A gente vai vivendo, vai esquecendo. Tem fatos que você ouviu falar, leu, notícias, viu num filme, viveu, imaginou. Vai vivendo e confunde as coisas, realidade, imaginação, tropeça nos dois, trepa com um, vomita no outro, repete os processos. É assim que tem que fazer, hum, eu imagino.

Sei que a minha garrafa de uísque se transforma numa de vodca e sei que estou vestida. Sei que vomitei na grama e a sensação é de alívio.

Sei que meus braços e pernas mal aguentam andar e que eu tirei meu salto alto. Carrego meus sapatos na mão e sinto a grama fria e molhada na sola dos pés.

Imagina um cara de vinte e tantos anos. Com aquela barba de três dias, cabelo repicado, sorriso, jaqueta de couro. Alto, calça jeans cara, coisa e tal. Imagina que ele

tá me esperando no carro dele.

Não sei como, mas eu sei que eu vou passar a noite com ele. Tomo mais um gole de vodca. O gole desce queimando garganta abaixo e limpando o gosto de vômito.

Que se foda mesmo, ressaca de vodca é melhor que de uísque.

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Extraído de contos de mentira. Copyright©Luisa Geisler, 2011

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